
Portugal Dorme Enquanto Dança
A tarde estava a descer e a temperatura subia em despique com as gotas que me caiam da testa, ansiedade e pé no pedal, faltam sete minutos para a hora marcada da entrevista e estou dentro do carro caminho ao Rossio, onde vive a coreógrafa que vou entrevistar. Ainda tento ligar à Vanessa, uma amiga, que é um furor em comunicação e esperava ouvir um eco de força, mas do vazio só aparece a sombra em forma de vulto a dar sinal à voz fantasma do voice mail.
Uns dias antes apaguei as mensagens do telemóvel, incluído a mensagem com a morada da entrevistada, sem saber qual o número da porta, envio um sms a informar que chegarei ligeiramente depois da hora combinada, e aproveito para confirmar o local de destino - a residência de Olga Roriz (O.R.).
Dois segundos após o envio da mensagem recebo outra, e era exactamente a mesma que tinha enviado. Weird... tinha gravado o meu número no nome de O. R., o stress sobe o calor não ajuda e a ansiedade só complica, o telefone toca, não sei onde está o auricular, não posso atender porque conduzo, recebo mensagem e o telemóvel volta a tocar, não atendo, estaciono o carro saio do parque a correr o telefone toca é de um numero que não tenho registado, acredito que seja a O.R., atendo, Bingo!!! É ela, peço desculpa, confirmo a morada e informo que estou em cinco minutos em sua casa.
Toco na campainha, olho ao meu redor para tentar enquadrar o ambiente que envolve a casa de O.R., a porta abre, tento conter a respiração ofegante, dou um beijo, dois beijos ou um aperto de mão, as gotas escorrem, não tenho lenço para as enxugar, dou um beijo ou dou dois? Não fiz a barba, as mãos estão escorregadias, a barba pica, uma mochila pesadíssima e uma mala com o Kit fotográfico a pesar-me o ombro direito, as costas quentes, a porta fecha-se e saem instintivamente dois beijos e um sorriso e uma paz que acalma o meu olhar curioso, o ambiente é acolhedor, um odor a incenso que adoro, do piso superior o som acolhe qualquer alma que se aproxime.
Subimos em silêncio, comento que o som é muito bom e pergunto quem é, Térez Montcalm, álbum Voodoo, e assim ao som de um ritual de palavras e com movimentos contidos surge a nossa conversa, protegida pela muralha fernandina que dá vida à sala, sinto uma onda fresca, que bom, há uma ventoinha enorme ao fundo da sala, sento-me de costas para o ar que alivia…
O.R., é uma mulher com um carácter forte, define-se como dramática, romântica, dura e analítica, consciente, tem a estética à flôr da pele, e o corpo é muita pele e o seu sentir tem uma enorme dimensão, " Sou muito instintiva, dramática, intuitiva, muito apaixonada. Estes últimos anos aprendi uma coisa que é o lado de humor que tinha só na minha intimidade."
Muitos não a conhecem nem a sua obra, outros devoram-na com críticas que orgulham Portugal por a ver dançar ou dirigir a sua companhia que já conta com treze anos de existência. Tem um charme incalculável e o seu mérito tem sido premiado pelo mundo fora. Subiu todos os degraus sem sobressaltos, fez dança clássica na Escola do T.N.S.Carlos e no conservatório, passou pela dança moderna, dançou no Ballet Gulbenkian, foi directora da Companhia de Dança de Lisboa, e por mais (des)conhecimento que se possa ter na área da Dança, a Coreografa e Bailarina tem e muito justamente o nome bem sólido como um fresco romântico, que nem o tempo apaga, o tempo apagará apenas a ideia que a coreógrafa tem relativamente à insegurança, “Sou uma pessoa muito insegura cada vez mais insegura, quando me faltar a insegurança eu acho que acabei.”
Colheu de perto, desde que nasceu, influências artísticas, primeiro com a sua mãe, que era actriz amadora, e mais tarde na sua adolescência quando esteve no T.N.S. Carlos, no Ratinho da Ópera dos 8 aos 18 anos, onde respirou todo o universo das temporadas de Ópera e Bailado. Desenvolveu relações com actores, cantores e bailarinos que lhe ofereceram uma visão ampliada e mais completa do campo das artes, o facto de estar no meio de grandes construções cénicas, figurinos, corpo, voz e movimento, acredito que tenham contribuído para a inovação que se assistiu na dança, criando em Portugal o movimento “dança teatro”.
Apesar de se considerar uma criança e de viver num mundo de ilusão, no seu próprio mundo, tem um elevado sentido de profissionalismo, e esse sentido acompanha-a em todos os movimentos da sua vida, dos amigos que são também pessoas com quem trabalha, aos discos que ouve que são sempre uma pesquisa para trabalho, aos livros que lê como influência para a dramaturgia da sua obra, é uma vida dedicada à beleza dos gestos, é a oferta de uma vida a um público que a venera.
Talento tem de sobra e usa-o muito bem na forma como o articula no seu trabalho. A sua obra é sempre uma espécie de desafio, é fragmentada, como afirma, apesar de ter sempre um princípio, meio e fim, "eu procuro-me a mim a minha maneira de estar, a minha maneira de ser, as vezes encontro-me, muitas vezes sem me procurar, muitas vezes as coisas acontecem, e são maiores do que eu. "
Comparada recorrentemente à directora do Tanztheater Wuppertal, a nossa dama de movimentos revela que já tinha iniciado a sua carreira como coreógrafa quando descobriu a Pina Bausch, com a qual ainda hoje mantém uma relação de amizade, "Ja me tinha lançado como coreógrafa, e não sabia quem era a Pina Baush, e quando fui à Holanda fazer um trabalho, tive contacto com a Sagração da Primavera, e nessa altura pensei , desisto, mas isto é o que quero fazer, isto é maravilhoso, é um rejeitar e ficar presa, a Pina Bausch deu-me força, é possível fazer coisas assim. "
Com grande entusiasmo fiquei a saber que a peça Inferno marca a nova fase da coreógrafa, onde o seu trabalho está repleto de bom humor, “Descobri a matéria do absurdo, começou a ser uma materia de trabalho, que encontrei passado não sei quanto tempo, e é pelo absurdo que aparece o humor.”, por outro lado marca a sua estética sendo este trabalho reflexo de uma exaustiva e exigente temporada de ensaios, nove meses, onde todos os movimentos foram esculpidos pela bailarina e coreógrafa, injectou a sua linguagem na forma como expressa as suas emoções e sentimentos. “Para que eles procurem os movimentos na minha linguagem, tenho que injectar, o inferno é quase todo coreografado por mim, não posso recuar do que gosto”.
O trabalho irá entrar em digressão este mês, pena não estar num espaço físico residente, é uma matéria que indigna bastante a O.R. e a todos nós também, não existir um espaço dedicado à dança contemporânea e com subsídios ajustados, e não haver a disparidade financeira existente entre o teatro e a dança, sendo duas artes que se complementam, afirma.
Abençoada pelo Padre Cruz, que é seu ascendente familiar, a coreógrafa recebeu uma ilustre encomenda que é produzir um espectáculo com uma dimensão imensa, coreografar para Viana do Castelo, cidade onde nasceu, uma peça em homenagem à Nª Sr.ª da Agonia.
A força revela-se ainda maior quando a sua humildade dispara "Acho sempre que podia chegar (sempre) mais longe … ".












